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Curtailment: o que é, por que acontece e como afeta sua conta de energia

Por Andrea Villaça

Curtailment: o que é e como esse fenômeno impacta a conta de energia

Você já ouviu falar em curtailment?
Esse termo em inglês vem ganhando destaque no setor elétrico brasileiro e significa, de forma simples, “corte de geração” — quando uma usina que poderia gerar energia precisa reduzir ou interromper sua produção, mesmo estando pronta para operar.

Mas por que isso acontece?
E o mais importante: como isso pode afetar o bolso do consumidor final?


O que é curtailment

Curtailment é o corte temporário da geração de energia elétrica, determinado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) ou por questões técnicas da rede.
Ele ocorre principalmente quando há excesso de geração em relação à demanda ou limitações na capacidade de transmissão — ou seja, a rede não consegue escoar toda a energia produzida naquele momento.

Em 2025, o Brasil vem registrando números recordes de curtailment:
entre janeiro e agosto, os cortes atingiram 17% do potencial de geração renovável, chegando a 36% da energia solar e 21% da eólica em determinados momentos.
O prejuízo acumulado para o setor já ultrapassa R$ 4,8 bilhões no ano e a expectativa é que aumente ainda mais.


 Por que afeta mais as fontes solares e eólicas

As usinas solares e eólicas são chamadas de fontes intermitentes, porque dependem de condições climáticas variáveis — sol e vento — e não produzem energia de forma contínua.

Quando há muito sol ou vento, essas fontes podem gerar mais energia do que o sistema consegue absorver.
Se a rede de transmissão não tiver capacidade para transportar esse excedente, o ONS precisa “desligar” parte das usinas para manter o equilíbrio e evitar sobrecarga.

É por isso que, paradoxalmente, podemos ter sobra de energia limpa sendo desperdiçada, mesmo em um país que ainda enfrenta altos custos de eletricidade.


Categorias de corte no Brasil (REN ANEEL 1.030/2022)

Para organizar e regulamentar esses cortes, a ANEEL definiu três categorias de curtailment:

  1. Indisponibilidade externa (REL) — ocorre quando há falhas, restrições ou manutenções nas linhas de transmissão externas à usina.

  2. Confiabilidade elétrica (CNF) — cortes relacionados à estabilidade e segurança do sistema elétrico.

  3. Razão energética (ENE) — acontece quando há excesso de geração em relação à demanda, exigindo limitação da produção.

Veja a diferença:

Categoria Sigla Causa do corte Há ressarcimento? Observações
Indisponibilidade Externa REL Falhas ou limitações fora da usina, em instalações de transmissão ou distribuição. Sim A responsabilidade é do sistema, não do gerador. Se comprovado que o corte decorre de indisponibilidade externa, o gerador tem direito ao ressarcimento.
Confiabilidade Elétrica CNF Ações operativas para garantir a estabilidade e segurança da rede elétrica. Não Considera-se que o corte é necessário para a operação segura do sistema. Assim, não há indenização ao gerador.
Razão Energética ENE Excesso de oferta em relação à demanda — ou seja, “energia sobrando” no sistema. Não Não há ressarcimento, pois o corte é motivado por condições de mercado ou equilíbrio energético, e não por falha técnica externa.

Essas categorias servem para delimitar quando o corte é legítimo e, em alguns casos, definir o direito de ressarcimento ao gerador. Apenas os cortes por Indisponibilidade Externa (REL) dão direito a ressarcimento, mas o tema tem gerado debate entre geradores e reguladores.
Os geradores defendem que parte dos cortes por Confiabilidade (CNF) decorre de falhas estruturais da rede e deveria ser compensada, enquanto os reguladores afirmam que são medidas operacionais necessárias para garantir a segurança do sistema.
A discussão segue em análise pela ANEEL e pelo MME, que estudam possíveis ajustes nas regras.


💡 Como o curtailment pode impactar sua conta de energia

Mesmo que o consumidor não veja “curtailment” escrito na fatura, os efeitos podem aparecer de forma indireta:

  1. Aumento de encargos setoriais
    Parte dos custos associados aos cortes — como ressarcimentos a geradores — pode ser repassada aos consumidores por meio de encargos, como o ESS (Encargo de Serviço do Sistema).

  2. Pressão nos preços da energia
    Quando há cortes recorrentes, o risco percebido pelos investidores aumenta, e isso tende a elevar os preços dos contratos, especialmente no mercado livre de energia.

  3. Acionamento de fontes mais caras
    Quando a geração renovável é cortada, o sistema precisa acionar usinas térmicas, com custo marginal mais alto — o que impacta o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) e, consequentemente, o valor final pago pelos consumidores.

  4. Impactos no futuro da transição energética
    O aumento dos cortes reduz a previsibilidade dos investimentos em energia limpa e pode encarecer novos projetos solares e eólicos, afetando metas de descarbonização e competitividade.


🔋 O que pode ser feito para reduzir o curtailment

  • Ampliar a infraestrutura de transmissão, especialmente no Nordeste, onde há forte concentração de geração renovável.

  • Regular e incentivar o armazenamento de energia (baterias, sistemas híbridos) para equilibrar picos de produção.

  • Criar sinais de preço mais dinâmicos, estimulando o consumo nos horários de maior geração solar e eólica.

  • Revisar regras de ressarcimento, garantindo previsibilidade e justiça para os agentes afetados.

  • Planejar melhor a integração da geração distribuída (como telhados solares) ao sistema nacional.


🌱 Conclusão

O curtailment é hoje um dos principais desafios do setor elétrico brasileiro: ele expõe a necessidade urgente de modernizar a rede, planejar o crescimento das fontes renováveis e criar soluções de armazenamento.

Para o consumidor, mesmo que o impacto não apareça diretamente na conta, ele está presente — seja em encargos, em custos sistêmicos maiores ou no encarecimento gradual da energia.